sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

"Lesões Incompatíveis com a Vida" de John Romão

A experiência de chegar um miúdo sem etiquetas pré-coladas nas nossas testas, e disparar nomes estrangeiros de quem deviamos conhecer o trabalho e ideias a que deviamos aderir instantaneamente.
Mas afinal, ele não era um miúdo. Nós não conheciamos os nomes estrangeiros. Ninguém aderiu instantaneamente às ideias. Chamaram-no louco, mau professor e até coitado. Tudo, porque não colou etiquetas nas nossas testas, porque em vez disso nos deu a nós as etiquetas e esperou para ver o que tinhamos para escrever de nós, o que tinhamos para dar de nós, para mostrar de nós. Porque em vez de quadrado, ele é cilindrico e rebolou as suas ideias contemporâneas por cima das mentes bicudas que nos incutiram. Ou porque há pessoas que não gostam de ninguém para além de si próprias, simplesmente.
Eu, gostei dele. Gostei do seu "sensor humano" que o levou a dar ao etiquetado de "Irresponsável" o maior texto para decorar, o papel de maior concentração para representar - e o engraçado, é que afinal "o Irresponsável" conseguiu! Escolheu pessoas em quem mais ninguém teria pegado, e todas conseguiram. Ele foi contra todas as etiquetas, todos os protótipos, todos os conselhos. E todos conseguimos.
Não foi um processo fácil. Não foram textos fáceis. Não foram personagens fáceis.
Falamos de dor, de mágua, de realidades que não conhecemos e que tivemos de conceber no nosso imaginário e transportar para a nossa pele, dar volume e densidade a cada palavra, compreender e transparecer cada visão.
E valia a pena, quando pelo canto do olho olhava para ele e ele parecia realmente um miúdo na cadeira do público, de tanto que gostava ver-nos ultrapassar os limites.
Foi, a par de muito mas mesmo muito poucas, uma das melhores experiências de um curso inteiro.
E tudo, porque ele não teve medo de ser ele próprio, para além das etiquetas.
E nós também não.

Obrigada John.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

"Electra" - Olga Roriz a solo no Camões



Ela espera enquanto entram, bebendo já da personagem.
(Personagem? Porque estou eu a assumir a existência de uma personagem?!)
De braços cruzados atravessa o palco e vai arrumando o cenário, bela e altiva no seu perfil. Não tem adereços; nenhum anel esquecido nos dedos, nenhum elástico deixado nos pulsos - o profissionalismo vê-se na nudez das suas mãos. E tem o cabelo solto em caracóis... Engraçado, sempre imaginei Electra com cabelos aos caracóis!
Senta-se na cadeira enquanto espera, e do meu ângulo vejo-lhe o arco interior do pé direito e penso o quanto um espectáculo é feito de pormenores e sombras assim, simples e claros.
Fica escuro, já todos se sentaram, e ela continua centrada de si em si mesma, como se no fundo nunca tivesse estado realmente à espera que o público pousasse na quietude para começar. Mesmo quando traz a cadeira para a frente e se senta de novo, a distância entre si e o público permanece.
São tão expressivos os seus longos dedos finos, mesmo parádos. Hoje só vejo pormenores! Ou será que só vejo o que ela quer que eu veja? Mesmo quando se despe, o mais que vejo são as expressões das suas mãos. Mesmo nua, o que sobressai é o rasgão dos seus olhos fechados. Exibição de pele que os meus olhos recusam, talvez isso e nada mais. Complexa, esta Electra!
Coloca-se para começar, e eu penso "Se ele te visse assim, diria que não funciona!"; e sorrio por dentro. As opiniões são sempre um dado subjectivo, e pondero se não é isso o que me fascina na arte.
Mas isso agora não interessa, o que interessa é Electra ali no palco, numa prolongada repetição de movimentos a descrever oitos no chão, a deixar gavetas curiosamente abertas atrás de si, a desnudar as costas para ser vista como é - costas nuas sempre me impressionaram, será que ela sabe? Quase me sinto manipulada!
E em Electra encontro uma imagem que traz saudade: ela ajeita o seu cabelo com a mesma perfeição e insistência com que Baush fumava cigarros. Uma ocorrência durante toda a peça, como um gesto que nunca foi realmente acabado, nem nunca recomeça realmente do zero.
Posso talvez atrever-me a defini-la, no geral, como seccionária e atenciosa aos ângulos, persistente na sua postura altiva, nunca se dando completamente ao público. Óbvia mas não demais; repetitiva mas não demais. Um tudo que persiste sempre sem ser nunca demais; dá vontade de descobrir o que se passa realmente, o que está por trás de cada gesto! O cabelo e as mãos, sempre. Um ser que nunca se assume mas que por mais que não aceite, permanece, renascendo em si a cada momento. E num momento pensei que nos fosse atirar com a cadeira como prova de superioridade da sua figura, na expressão insegura, e rendendo-se à insegurança não o faz. O tal ser que não se assume! O eco da respiração pelo palco adentro a fazer-se ouvir pelo teatro fora. A maturidade ilimitada em cada gesto contraria a fragilidade que a assalta e a que nunca se entrega. E no fim, termina sóbria, agarrada a quem é, sem se deixar levar pelo que nega assumir.
Agradável serão de Sábado à noite. No entanto, não posso negar que não esperásse mais. São sempre tão voláteis, as expectativas de cada um!
Muita merda para a digressão, Electra.