A experiência de chegar um miúdo sem etiquetas pré-coladas nas nossas testas, e disparar nomes estrangeiros de quem deviamos conhecer o trabalho e ideias a que deviamos aderir instantaneamente.
Mas afinal, ele não era um miúdo. Nós não conheciamos os nomes estrangeiros. Ninguém aderiu instantaneamente às ideias. Chamaram-no louco, mau professor e até coitado. Tudo, porque não colou etiquetas nas nossas testas, porque em vez disso nos deu a nós as etiquetas e esperou para ver o que tinhamos para escrever de nós, o que tinhamos para dar de nós, para mostrar de nós. Porque em vez de quadrado, ele é cilindrico e rebolou as suas ideias contemporâneas por cima das mentes bicudas que nos incutiram. Ou porque há pessoas que não gostam de ninguém para além de si próprias, simplesmente.
Eu, gostei dele. Gostei do seu "sensor humano" que o levou a dar ao etiquetado de "Irresponsável" o maior texto para decorar, o papel de maior concentração para representar - e o engraçado, é que afinal "o Irresponsável" conseguiu! Escolheu pessoas em quem mais ninguém teria pegado, e todas conseguiram. Ele foi contra todas as etiquetas, todos os protótipos, todos os conselhos. E todos conseguimos.
Não foi um processo fácil. Não foram textos fáceis. Não foram personagens fáceis.
Falamos de dor, de mágua, de realidades que não conhecemos e que tivemos de conceber no nosso imaginário e transportar para a nossa pele, dar volume e densidade a cada palavra, compreender e transparecer cada visão.
E valia a pena, quando pelo canto do olho olhava para ele e ele parecia realmente um miúdo na cadeira do público, de tanto que gostava ver-nos ultrapassar os limites.
Foi, a par de muito mas mesmo muito poucas, uma das melhores experiências de um curso inteiro.
E tudo, porque ele não teve medo de ser ele próprio, para além das etiquetas.
E nós também não.
Obrigada John.
