segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

"Electra" - Olga Roriz a solo no Camões



Ela espera enquanto entram, bebendo já da personagem.
(Personagem? Porque estou eu a assumir a existência de uma personagem?!)
De braços cruzados atravessa o palco e vai arrumando o cenário, bela e altiva no seu perfil. Não tem adereços; nenhum anel esquecido nos dedos, nenhum elástico deixado nos pulsos - o profissionalismo vê-se na nudez das suas mãos. E tem o cabelo solto em caracóis... Engraçado, sempre imaginei Electra com cabelos aos caracóis!
Senta-se na cadeira enquanto espera, e do meu ângulo vejo-lhe o arco interior do pé direito e penso o quanto um espectáculo é feito de pormenores e sombras assim, simples e claros.
Fica escuro, já todos se sentaram, e ela continua centrada de si em si mesma, como se no fundo nunca tivesse estado realmente à espera que o público pousasse na quietude para começar. Mesmo quando traz a cadeira para a frente e se senta de novo, a distância entre si e o público permanece.
São tão expressivos os seus longos dedos finos, mesmo parádos. Hoje só vejo pormenores! Ou será que só vejo o que ela quer que eu veja? Mesmo quando se despe, o mais que vejo são as expressões das suas mãos. Mesmo nua, o que sobressai é o rasgão dos seus olhos fechados. Exibição de pele que os meus olhos recusam, talvez isso e nada mais. Complexa, esta Electra!
Coloca-se para começar, e eu penso "Se ele te visse assim, diria que não funciona!"; e sorrio por dentro. As opiniões são sempre um dado subjectivo, e pondero se não é isso o que me fascina na arte.
Mas isso agora não interessa, o que interessa é Electra ali no palco, numa prolongada repetição de movimentos a descrever oitos no chão, a deixar gavetas curiosamente abertas atrás de si, a desnudar as costas para ser vista como é - costas nuas sempre me impressionaram, será que ela sabe? Quase me sinto manipulada!
E em Electra encontro uma imagem que traz saudade: ela ajeita o seu cabelo com a mesma perfeição e insistência com que Baush fumava cigarros. Uma ocorrência durante toda a peça, como um gesto que nunca foi realmente acabado, nem nunca recomeça realmente do zero.
Posso talvez atrever-me a defini-la, no geral, como seccionária e atenciosa aos ângulos, persistente na sua postura altiva, nunca se dando completamente ao público. Óbvia mas não demais; repetitiva mas não demais. Um tudo que persiste sempre sem ser nunca demais; dá vontade de descobrir o que se passa realmente, o que está por trás de cada gesto! O cabelo e as mãos, sempre. Um ser que nunca se assume mas que por mais que não aceite, permanece, renascendo em si a cada momento. E num momento pensei que nos fosse atirar com a cadeira como prova de superioridade da sua figura, na expressão insegura, e rendendo-se à insegurança não o faz. O tal ser que não se assume! O eco da respiração pelo palco adentro a fazer-se ouvir pelo teatro fora. A maturidade ilimitada em cada gesto contraria a fragilidade que a assalta e a que nunca se entrega. E no fim, termina sóbria, agarrada a quem é, sem se deixar levar pelo que nega assumir.
Agradável serão de Sábado à noite. No entanto, não posso negar que não esperásse mais. São sempre tão voláteis, as expectativas de cada um!
Muita merda para a digressão, Electra.

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