terça-feira, 20 de abril de 2010

Orfeu e Eurídice - Compagnie Marie Chouinard no CCB



Um palco vazio. Branco. Um cubo. Uma sombra e uma voz. Duas vozes. Corpos que se contorcem visceralmente...
E tudo passa.

Assim tem início esta peça de 2008, em palco lusitano pela primeira vez na passada Quinta-feira. Pretendendo ir ao encontro da lenda grega de Orfeu e Eurídice, acaba por atentar mais nas trivialidades transversais à história do que nesta propriamente dita, gerando um contexto descontextualizado. Diga-se antes, uma abordagem inovadora ao tema.
Pintando o Inferno de branco e cobrindo-o de prazer, leviandade e ironia, Marie Chouinard presenteia-nos com a mais pura e desejável imagem do Inferno: uma festa constante - apesar de haver sempre alguém que sofre, há sempre alguém que é feliz em simultâneo! Graças ao figurino reduzido dos corpos e a um simples mas adequado desenho de luz, geram-se emoções fortes e excessivas que mudam a uma velocidade alucinante, conduzindo a duas ideias fundamentais e antagónicas, presentes em toda a peça: um sofrimento visceral, que vem da alma, e em oposição o desejo absolutamente carnal, quase animalesco. Os sons guturais e gemidos de aflição acompanham na perfeição a primeira ideia, povoada de tristeza e medo em cada gesto, em cada olhar. Por outro lado, o silêncio dos intérpretes que expressam simplesmente enorme satisfação e felicidade, são a ilustração perfeita dos momentos de sacrilégio.
O brilhantismo desta peça está na concretização de um sistema de indefinição de sexos: qualquer intérprete pode ser Orfeu ou Eurídice, ou todos serem apenas uma das personagens, ou nenhum ser personagem alguma e representarem apenas situações paralelas ao mito, e que embora de importância diminuta são um elemento fulcral na abordagem de Marie Chouinard, por estabelecerem o ambiente e contextualizarem constantemente a peça, impedindo que qualquer situação feliz passível de acontecer a par da tragédia seja ignorada.
Revestindo de simplicidade cada momento e aperfeiçoando-o com sarcasmo, as cartas são sempre postas na mesa: a história é contada e desenhada pelos corpos semi-vestidos e a (in)distinção das vozes e dos sons complementam a inexistência de complexidade. Transmite claramente a ideia de que o Inferno se assemelha simplesmente a um manicómio de pessoas incontroláveis e bi-polares, que se abandonam à sua ilusão de felicidade tanto quanto ao seu sofrimento profundo, visceral. No fundo, qualquer daqueles corpos procura somente a redenção, demonstrando constantemente que apesar de se terem conformado às seduções do Inferno, algo os mantém visceralmente presos ao que já não podem alcançar.
Eles, Orfeus e Eurídices.
(Nós, Orfeus e Eurídices)
Vão arder no Inferno: a redenção não vai chegar.

Esta é uma interpretação hilariante da tragédia grega, conseguida de uma perspectiva, no mínimo, invulgar. Apesar de repetitiva (até à exaustão!) na abordagem às seduções do Inferno, chegando por vezes a deixar no esquecimento a presença do mito que contextualiza tais momentos, estes seriam indispensáveis à leitura que a autora pretende do seu trabalho - leitura esta que torna impossível não ter uma boa imagem do Inferno.

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